206 Metafísica de Aristóteles Θ 1-3

Em que sentido? Se a realidade de um ente que tem o poder e tem a força para alguma coisa se encontra na execução, então um perceptível (Wahrnehmbares) como tal só “é” real quando, só e precisamente enquanto está sendo percebido, como se diz, só é real numa percepção “atual” (aktuellen). E Aristóteles continua suas conclusões: se não há nenhuma percepção sendo executada, então também algo assim como uma coisa colorida e a própria cor, uma coisa que ressoa e o som se fazem presentes. A pluridiversidade colorida desse mundo imediato doado pelo sensível deve começar cada vez de novo através de cada execução de uma percepção e de novo cessar, e o que ali surge e desaparece em si mesmo não é nada e não está ali presente. E mais do que isso: em consequência de sua tese, os megáricos não apenas devem chegar a essa concepção em relação ao que realmente nos é dado de imediato, mas devem negar inclusive a possibilidade de um ente estar ali presente em si e por si, pois esse só pode ser admitido se for possível visibilizar que o ser-ali-presente daquilo que está ali presente, enquanto um perceptível, não permanece dependente exclusivamente da execução de uma percepção. Resulta desse modo que as consequências da tese dos megáricos são muito mais abrangentes, atingindo até as condições essenciais de possibilidade do que é perceptível. Não faz apelo apenas para a variedade existente factualmente das pessoas que percebem e que percebem a cada vez [201] de modo diferente. Com tanto mais razão e mais certeza devem então os megáricos desembocar na tese de Protagoras.

O ponto em que Aristóteles constringe os megáricos nas consequências de sua tese é, como diz a apelação que faz à Protágoras, tanto a dissolução da possibilidade da verdade quanto a realidade autônoma do ente que está ali presente. Essa última coisa vem indicada pelo fato de que o argumento que agora está sendo discutido concerne aos dipuxa- A realidade do que está ali presente como algo autônomo só pode ser salva para a visão se for possível mostrar que a realidade de algo perceptível, como tal, não reside na execução da percepção.


Martin Heidegger (GA 33) Metafísica de Aristóteles Θ 1-3: sobre a essência e a realidade da força