de vir referido ao ente por si autônomo, não retirar a autonomia a este por essa referência, mas antes, precisamente por essa referência, possibilitar, em verdade, que esse ente assegure para si essa autonomia.
Mas isso implica que tenhamos em geral a possibilidade de compreender como real algo que está ali presente, mesmo e precisamente quanto isso que está ali presente esteja presente como algo que de um modo ou de outro tem poder; e aqui: tem o poder de ser percebido (é essa a possível pertença do ente ao mundo, no qual apenas se “torna11 ente, e assim se expõe como aquilo que mesmo antes de ser percebido não era um nada). A independência das coisas ali presentes em relação a nós, homens, em nada é prejudicada pelo fato de justo essa independência, como tal, só ser possível quando existem seres humanos. O ser-em-si das coisas não só não pode ser esclarecido sem a existência do ser humano, como até torna-se totalmente absurdo. Mas isso ainda não significa que as coisas, elas mesmas, sejam dependentes do ser humano.
Mas para se discutir essas relações e verdades fundamentais, de modo plenamente unívoco, isto é, em todos os seus aspectos, e sobretudo descrevendo-as e delimitando seus contornos e o modo de seu asseguramento, para isso é preciso novamente todo o empenho de uma filosofia. E é só assim que sempre de novo dimensionamos a totalidade do lugar onde nós sempre [203] nos situamos, enquanto homens. E ê só quanto perpassamos de fora a fora esse lugar em todo seu caráter de lugar que podemos decidir claramente o que seja ἄτοπος - sem lugar, e não sucumbir no interior daquilo que em geral pode ter seu lugar.
Compreendida desse modo, a frase de Protágoras ganha um significado totalmente novo, a saber, aquele que a destaca como princípio supremo de todo filosofar. “Medida de todas as coisas é o homem, dos entes, que eles são, e dos não-entes, que eles não são". Um princípio - não como uma expressão barata e aplicável a qualquer situação, mas como ponto de partida e de engajamento da questão na qual o homem adentra para o fundo de sua essência. Mas esse questionar representa a ação fundamental de todo filosofar.