A essência do fundamento 145

por uma ampliação “adequada” daqueles. Muito ao contrário, os conceitos ontológicos originários devem ser conquistados antes de toda definição científica dos conceitos fundamentais, de tal modo que, a partir daqueles, se torne possível estimar de que maneira restritiva e, em cada caso, delimitadora a partir de um ponto de vista determinado, os conceitos fundamentais das ciências atingem o ser, somente captável em conceitos puramente ontológicos. O “fato” das ciências, isto é, o conteúdo fático de compreensão de ser que elas necessariamente encerram, como qualquer comportamento para com o ente, não é nem instância fundadora para o a priori, nem a fonte do conhecimento do mesmo, mas é apenas uma possível e motivadora orientação que aponta para a constituição ontológica originária, por exemplo, da história ou da natureza, orientação que ainda deve, por sua vez, permanecer submetida à constante crítica, que já recebeu os pontos que tem em mira da problemática fundamental de todo o questionamento do ser do ente.

Os possíveis níveis e modulações da verdade ontológica no sentido mais amplo traem, ao mesmo tempo, a riqueza daquilo que, como verdade originária, fundamenta toda a verdade ôntica27. Desvelamento do ser sempre é, porém,



27. Quando hoje se toma em consideração “ontologia” e “ontológico” como cliché e nome para movimentos, então tais expressões são usadas com bastante superficialidade e com desconhecimento de qualquer problemática. É-se da opinião falsa de que ontologia como questionamento do ser do ente significa “postura” “realista” (ingénua ou crítica) em oposição à “idealista”. A problemática ontológica tem tão pouco a ver com “realismo” que justamente Kant em e com seu questionamento transcendental pôde dar o primeiro passo decisivo para uma fundamentação expressa da ontologia, desde Platão e Aristóteles. Pelo fato de defendermos a “realidade do mundo exterior” ainda não estamos orientados ontologicamente. “Ontológico” — tomado no sentido popular-filosófico — significa, contudo — e nisto se revela sua desesperada confusão —, isto que deve ser chamado muito mais de ôntico, isto é, uma postura que deixa o ente ser em si o que e como ele é. Com isto, porém, não se levantou ainda nenhum problema do ser, e muito menos se conquistou o fundamento para a possibilidade de uma ontologia. 1a edição de 1929: além disto, o que está de antemão em questão não é nem fazer nem fundamentar uma ontologia, mas alcançar a verdade do seer, isto é, ser alcançado por ela — história do próprio seer, não exigência de uma erudição filosófica; por isto, ser e tempo.


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho