verdade do [134] ser do ente, seja este efetivamente real ou não. E vice-versa, no desvelamento do ente já sempre reside um desvelamento de seu ser. Verdade ôntica e ontológica sempre se referem, de maneira diferente, ao ente em seu ser e ao ser do ente. Em razão de sua relação, elas fazem parte de uma maneira essencialmente conjunta da diferença entre ser e ente28 (diferença ontológica)29. A essência ôntico-ontológica da verdade em geral, desta maneira necessariamente bifurcada30, somente é possível junto com a irrupção dessa diferença. Se, entretanto, por outro lado, o elemento distintivo do ser-aí reside no fato de se relacionar com o ente compreendendo o ser, então o poder distinguir, no qual a diferença ontológica se torna fática, deve ter fincado a raiz de sua própria possibilidade no fundamento da essência do ser-aí. [135] A este fundamento da diferença ontológica designamos, já nos antecipando, transcendência do ser-aí.
Se se caracterizar todo o comportamento para com o ente como intencional, então a intencionalidade só é possível sobre o fundamento da transcendência, mas ela não é nem idêntica a esta, nem tampouco a possibilitação da transcendência31.
28. 1a edição de 1929: o ambíguo desta distinção: visto a partir do que se deu até aqui, um passo em direção à sua superação e, contudo, uma rearticulação fatídica que obstrui todo e qualquer caminho para a “unidade” originária e, com isto, também para a verdade da distinção.
29. 1a edição de 1929: cf. quanto a este ponto a primeira apresentação na preleção do semestre de verão de 1927: Die Grundprobleme der Phãnomenologie (Os problemas fundamentais da fenomenologia), § 22. A conclusão corresponde ao começo, no qual a tese kantiana sobre o “ser”, a tese de que ele não seria nenhum predicado real, é discutida; e, em verdade, com o intuito de visualizar a diferença ontológica enquanto tal pela primeira vez - a partir de sua proveniência a partir da ontologia, experimentando-a, porém, de maneira ontológico-fundamental. O todo da preleção pertence a Ser e tempo, I. Parte, 3a seção, “Tempo e ser”.
30. 1a edição de 1929: aqui, a essência da verdade é concebida como “bifurcada” a partir da “diferença” como marca fixa, ao invés de superar a “diferença” a partir da essência da verdade do seer ou pensar a “diferença” como o seer mesmo e nele o ente do seer - não mais como ser do ente.
31. Cf. ibid., § 69, p. 364s e ainda p. 363, nota.