A essência da verdade 209

totalidade, ele mesmo velado, impera no desvelamento do respectivo ente que, como esquecimento do encobrimento, se transforma em errância.

A errância é a antiessência fundamental que se opõe à essência inicial da verdade. A errância se revela como o espaço aberto para tudo o que se opõe à verdade essencial. A errância é o cenário e o fundamento do erro. O erro não é uma falta ocasional, mas o império (o domínio) da história, na qual se entrelaçam, confundidas, todas as modalidades do errar.

Todo comportamento possui sua maneira de errar, correspondente à abertura que mantém e à sua relação com o ente na totalidade. O erro se estende desde o mais comum engano, inadvertência, erro de cálculo até o desgarramento e o perder-se de nossas atitudes e nossas decisões essenciais. Aquilo que o hábito e as doutrinas filosóficas chamam erro, isto é, a não-conformidade do juízo e a falsidade do conhecimento, é apenas um modo e ainda o mais superficial de errar. A errância, na qual a humanidade histórica deve se movimentar para que se possa dizer que sua marcha é errante, é um componente essencial da abertura do ser-aí. A errância domina o homem enquanto o leva a se desgarrar. Pelo desgarramento, porém, a errância também contribui para fazer nascer esta possibilidade que o homem pode tirar da ek-sistência e que consiste em não se deixar levar pelo desgarramento. O homem não sucumbe no desgarramento, se ele mesmo é capaz de provar a errância enquanto tal e de não desconhecer o mistério do ser-aí.

Pelo fato de a ek-sistência in-sistente do homem marchar na errância e pelo fato de essa errância enquanto desgarramento sempre ameaçar o homem de alguma maneira, a ek-sistência está plena de mistério e de um mistério esquecido. Eis por que o homem está submisso, na ek-sistência de seu ser-aí, ao mesmo tempo ao reino do mistério e à ameaça que irrompe da errância. Tanto o mistério como a ameaça de desgarramento mantêm o homem na indigência do constrangimento. A plena essência da verdade, incluindo sua própria não-essência, mantém o ser-aí na indigência pela constante oscilação


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho