Carta sobre o humanismo* (1946)



Nós ainda estamos muito longe de pensar a essência do agir de maneira suficientemente decisiva. Só conhecemos o agir como a produção de um efeito, cuja realidade vem estimada segundo sua utilidade. Mas a essência do agir é o levar a cabo. Levar a cabo significa: Desenvolver alguma coisa na plenitude de sua essência, conduzir até essa essência, producere. Em sentido próprio, só pode ser levado a cabo, portanto, aquilo que já é. Mas o que “é”, antes de tudo, é o ser. O pensamento leva a cabo a relação entre o ser e a essência do homem. Ele não faz, nem produz essa relação. O pensamento se limita a oferecê-la ao ser como aquilo que a ele próprio foi doado pelo ser. Esse oferecer consiste no fato de o ser vir à linguagem no pensar. A linguagem é a morada do ser. Na habitação da linguagem mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardiões dessa morada. Sua vigília consiste em levar a cabo a manifestação do ser, na medida em que, por seu dizer, a levam à linguagem e nela a custodiam. O pensar não se converte em ação pelo fato de provir dele algum efeito ou por ser utilizado. O pensar age na medida em que pensa. Essa ação é provavelmente a mais simples e ao mesmo tempo a mais elevada, pois diz respeito à relação entre ser e homem. Toda atuação, porém, repousa no ser e se dirige ao ente. O pensar, em contrapartida, deixa-se interpelar



* A primeira edição é de 1949: O que se diz aqui não é fruto de um pensamento que só ocorreu no período em que surgiu este escrito, mas está postado no curso de uma caminhada que já vem desde 1936, no “momento” de uma tentativa de dizer de maneira simples a verdade do ser. - A carta se expressa ainda numa linguagem metafísica, e, em verdade, intencionalmente. A outra linguagem fica como pano de fundo.


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo - Marcas do caminho p. 326