332 Marcas do caminho

assentado que a verdade do ser pode ser sustentada sobre causas e motivos explicativos ou, o que dá no mesmo, sobre a incompreensibilidade dos mesmos.

Se o homem quiser voltar a se encontrar novamente nas cercanias do ser, porém, então ele precisa antes aprender a existir no sem-nome. Precisa reconhecer, da mesma maneira, tanto a sedução perversa da opinião pública quanto a impotência de uma vida privada. Antes de falar, o homem precisa novamente deixar-se interpelar, correndo o risco de que, sob esse apelo, ele pouco ou raramente tenha algo a dizer. É só assim que a palavra voltará a ser presenteada com o precioso valor de sua essência e o homem com a habitação para morar na verdade do ser.

Mas será que nesse apelo feito ao homem, na tentativa de preparar o homem para esse apelo, não se encontra uma preocupação com o homem? Para onde se dirige “o cuidado”, se não na direção de reconduzir o homem de volta à sua essência. Que outra coisa significa isto, senão que o homem (homo) se torna humano (humanus)? Assim, a humanitas continua sendo o interesse de um tal pensar; pois humanismo é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano “inhuman”, isto é, fora de sua essência. E onde, pois, reside a humanidade do homem? Repousa em sua essência.

A partir de onde e como, contudo, se determina a essência do homem? Marx exige que o “homem humano” seja conhecido e reconhecido. Ele encontra esse homem na “sociedade”. Para ele, o homem “natural” é o homem “social”. É na “sociedade" que, de certo modo, se garante a “natureza” do homem, isto é, a totalidade de suas “necessidades naturais” (alimento, vestuário, procriação, sustento económico). O cristão vê a humanidade do homem, a humanitas do homo, na sua delimitação frente à Deitas. É o homem da história da salvação enquanto “filho de Deus”, que em {GA 9: 320} Cristo escuta e adota o apelo do Pai. O homem não é desse mundo, na medida em que o “mundo” - concebido segundo a teoria platónica - nada mais é que uma transição provisória para o além.


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo - Marcas do caminho