Carta Sobre o Humanismo 335

a que pergunta pela verdade do ser, deve ser introduzida como uma pergunta “metafísica”.

Tanto o primeiro humanismo, o romano, quanto todos o s tipos de humanismo surgidos desde então até o presente, pressupõem a “essência” mais universal do homem como óbvia e evidente. O homem é definido como animal rationale. Essa definição não é só uma versão latina do grego ζῷον λόγον ἔχον, mas uma interpretação metafísica do mesmo. Esta definição da essência do homem não é falsa. É condicionada, no entanto, pela metafísica. Não só seus limites, mas também a proveniência de sua essência foi algo considerado digno de ser questionado em Ser e tempo. O que é digno de ser pensado é aquilo que é primeiramente dado ao pensar como o que precisa ser por ele pensado, mas jamais esbarra na voracidade de uma busca impulsionada por um anseio vazio por colocar tudo em dúvida.

É verdade que a metafísica representa o ente em seu ser e também pensa, assim, o ser do ente. Todavia, ela não pensa o ser como tal, não pensa a diferença entre os dois (cf. “Da essência do fundamento”, 1929, p. 8, e ademais “Kant e o problema da metafísica”, 1929, p. 225, e, ainda, Ser e tempo, p. 230). A metafísica não pergunta pela verdade do ser ele mesmo. Por isto, jamais pergunta de que modo o ser do homem pertence à verdade do ser. Até o presente, a metafísica não só não colocou essa questão, mas essa questão permaneceu inacessível à metafísica como metafísica. O ser está ainda aguardando para se tornar digno, ele próprio, de ser pensado pelo homem. Na perspectiva da determinação da essência do homem, como quer que se queira determinar a ratio do animal e a razão do ser vivo, {GA 9: 323} seja como “faculdade dos princípios”, seja como “faculdade das categorias” ou ainda de um outro modo, por toda parte e por todas as vezes, a essência da razão está fundamentada no fato de que, em toda notação do ente em seu ser, o ser já sempre se iluminou, ou seja, no fato de que ele acontece apropriativamente em sua verdade. Igualmente, quando se diz “animal”, ζῷον, já se pressupôs uma interpretação de “vida” que se sustenta necessariamente em uma interpretação do ente como ζωή e


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho