336 Marcas do caminho

φύσις, uma interpretação na qual o vivente aparece. Mas além de tudo isto e antes de qualquer coisa, resta finalmente a tarefa de se perguntar se a essência do homem, inicialmente e decidindo tudo de antemão, pertence à dimensão da animalitas. Será que estamos na direção certa rumo à essência do homem quando e enquanto definimos o homem como um ser vivo entre outros, distinguindo-o da planta, do animal e de Deus? Podemos proceder deste modo, podemos colocar o homem, deste modo, no âmbito do ente como um ente entre outros. E nisto pode se expressar sempre algo correto sobre o homem. No entanto, precisamos ter ciência de que, com isto, relegamos definitivamente o homem ao âmbito essencial da animalitas, mesmo quando não o equiparamos ao animal, mas lhe atribuímos uma diferença específica. Em princípio, pensa-se sempre o homo animalis, mesmo quando a anima vem colocada como animus sive mens e esses, mais tarde, são concebidos como sujeito, pessoa, espírito. Esse posicionamento é o modo de proceder da metafísica. Mas desse modo se menospreza a essência do homem e não se pensa sua proveniência, uma proveniência essencial que continua sendo sempre o futuro essencial para a humanidade histórica. A metafísica pensa o homem a partir de sua animalitas e não o pensa na direção de sua humanitas.

A metafísica se fecha para o simples fato essencial de que o homem só se essencializa em sua essência na medida em que é interpelado pelo ser. É só por essa interpelação que ele “tem” encontrado aquilo em que habita sua essência. É só por este habitar que ele “tem” “linguagem” como a morada que garante o ekstático à sua essência. Estar postado na clareira do ser, {GA 9: 324} a isso eu chamo de ek-sistência do homem. É só ao homem que é próprio esse modo de ser. O que se compreende assim como ek-sistência não é só o fundamento da possibilidade da razão, ratio, mas é igualmente aquilo onde a essência do homem guarda a proveniência de sua determinação.

A ek-sistência só pode ser dita da essência do homem, ou seja, apenas do modo humano de “ser”; pois, até onde podemos experimentar, só o homem é abandonado no interior do destino da ek-sistência. Por isto, supondo-se que o homem


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo - Marcas do caminho