esteja destinado a pensar a essência de seu ser e não apenas a relatar historiologias naturais e históricas sobre sua constituição e sua atividade, sua ek-sistência também jamais poderá ser pensada como uma espécie particular entre outras espécies de seres vivos. Assim, mesmo aquilo que atribuímos no homem enquanto animalitas, a partir da comparação que lazemos deie com o “animal”, se enraíza na essência da ek-sistência. O corpo humano é algo essencialmente diferente do organismo animal. Mas o erro do biologismo não é superado pelo fato de se acrescentar a alma à corporalidade humana, de acrescentar o espírito à alma e o aspecto existencial ao espírito, propalando mais alto do que nunca a alta estima que se deve ao espírito, para depois deixar tudo isto e recair na vivência da vida, assegurando e advertindo que o pensar, com seus conceitos rígidos, destrói o fluxo vital e que o pensar o ser desfigura a existência. O fato de a fisiologia e a química fisiológica poderem, pela ciência da natureza, investigar o homem como um organismo não serve para demonstrar que a essência do homem repousa neste elemento “orgânico”, isto é, no corpo explicitado pela ciência da natureza. Isto tem tão pouca validez quanto a opinião de que a essência da natureza estaria encerrada na energia atómica. Pode ser, no entanto, que a natureza oculte sua essência justamente nesta versão que ela oferece para o apoderamento técnico do homem. Assim como a essência do homem não consiste em ser um organismo animal, assim tampouco pode-se afastar e compensar essa insuficiente determinação da essência do homem com {GA 9: 325} o argumento de que o homem está dotado de uma alma imortal, de uma capacidade racional ou ainda do caráter de pessoa. Todas estas tentativas passam ao largo de sua essência, e, em verdade, com base no mesmo projeto metafísico.
O que é o homem, isto é, aquilo que na linguagem tradicional da metafísica é denominado a “essência” do homem, reside em sua ek-sistência. Mas o que assim se pensa como ek-sistência não se identifica com o conceito tradicional de existentia, isto é, realidade efetiva, em distinção ante a essentia como a possibilidade. Em Ser e tempo sublinha-se a seguinte frase: “A ‘essência’ do ser-aí reside em sua existência”.