a caracterização do homem como animal racional; em geral, essa caracterização é habitual e, por isto, sempre muito apressada. E visto que os vegetais e os animais sempre se encontram ligados ao seu meio ambiente e jamais se encontram postados livremente na clareira do ser, a única que constitui “mundo”, eles não têm linguagem. Mas não é porque a linguagem lhes permanece negada que eles dependem de seu meio ambiente, desprovidos de mundo. Nessa palavra “meio ambiente”, porém, congrega-se tudo o que há de enigmático no ser-vivo. Em sua essência, a linguagem não é a manifestação de um organismo, tampouco a expressão de um ser vivo. Por isto, jamais pode ser pensada de modo essencialmente correto a partir do caráter de sinal, e quem sabe nem sequer a partir de seu caráter de significação. A linguagem é o advento do ser, que ilumina e oculta.
A ek-sistência, pensada ek-staticamente, não coincide nem em seu conteúdo nem segundo a forma com a existentia. Segundo seu conteúdo, ek-sistência significa postar-se-para-fora5 na verdade do ser. Existentia (existence), ao contrário, significa actualitas, realidade efetiva, em distinção ante a mera possibilidade como idéia. Ek-sistência designa a determinação do que é o homem no destino da verdade. Existentia continua sendo o nome para designar a realização daquilo que algo é, ao se manifestar em sua idéia. A frase “o homem {GA 9: 327} ek-siste” não está respondendo à indagação que pergunta se o homem efetivamente é ou não, mas responde à pergunta acerca da “essência” do homem. Costumamos formular essa pergunta de modo mais ou menos inadequado, seja quando perguntamos o que é o homem ou quando perguntamos quem é o homem, pois no quem? ou no o que? já partimos da perspectiva de algo pessoal ou de um objeto. Só que o caráter pessoal distorce e destrói o essencial da ek-sistência da história do ser tanto quanto o caráter de objeto. E por isto que em Ser e tempo (p. 42) a palavra “essência” é
5. A doutrina platónica da verdade, 1a ed. 1947: “para-fora”: para além, em direção ao fora do aparte da diferença da diferença (o aí), não “para-fora” saindo de um interior.