Carta Sobre o Humanismo 341

não é uma mudança do ponto de vista9 de Ser e tempo, mas nela o pensamento buscado alcançou pela primeira vez adentrar no sítio da dimensão a partir da qual Ser e tempo foi experimentado, e, em verdade, experimentado na experiência fundamental do esquecimento do ser10.

Sartre, em contrapartida, expressa o princípio básico do existencialismo do seguinte modo: A existência precede a essência. Neste caso, ele toma existência e essência no sentido da metafísica, que desde Platão afirma: a essência precede a existência. Sartre inverte essa frase. Mas a inversão de uma frase metafísica continua sendo uma frase metafísica. Com essa frase, ele continua preso, junto com a metafísica, no esquecimento da verdade do ser. Pois mesmo que a filosofia determine a relação entre essentia e existentia no sentido da controvérsia própria à Idade Média ou no sentido de Leibniz ou de qualquer outro, antes de tudo isto resta ainda perguntar a partir de que destino do ser se apresentou ao pensamento essa distinção11 que se dá no ser, essa distinção entre esse essentiae e esse existentiae. Resta ainda perguntar por que a questão acerca do destino do ser jamais foi colocada e por que jamais pôde ser pensada. Ou será que o fato de a distinção entre essentia e existentia estar nesta situação não pode ser um sinal do esquecimento do ser? Podemos supor que esse destino {GA 9: 329} não reside em uma mera falha do pensar humano, e muito menos em uma capacidade inferior do pensamento ocidental precedente. A distinção entre essentia (essencialidade) e existentia (realidade efetiva), oculta em sua origem essencial, domina e perpassa de ponta a ponta o destino da história ocidental e de toda história determinada pela versão européia.

A proposição principal de Sartre sobre a precedência da existentia sobre a essentia justifica, todavia, o nome “existencialismo”



9. 1a ed. 1949: isto é, da questão do ser.

10. 1a ed. 1949: esquecimento - Λήθη - encobrimento - retraimento - expropriação: acontecimento-apropriação.

11. 1a ed. 1949: mas esta distinção não se identifica com a diferença ontológica. Dentro dela, aquela distinção pertence ao “lado” do ser.


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho