344 Marcas do caminho

isto. O “ser” - não é nem Deus, nem um fundamento do mundo. O ser é essencialmente mais amplo14 que todos os entes, e, contudo, é mais próximo do homem do que qualquer ente, seja este uma rocha, um animal, uma obra de arte, uma máquina, seja ele um anjo ou Deus. O ser é o mais próximo. E, todavia, a proximidade é o que permanece mais distante do homem. De imediato, o homem se mantém sempre já e apenas junto ao ente. Quando o pensar representa o ente como ente, porém, ele se refere com efeito ao ser.Não obstante, pensa, em verdade, sempre apenas o ente como tal, mas não e jamais o ser como tal. A “questão do ser” continua sempre a questão acerca do ente. A questão do ser ainda não é de modo algum o que este título capcioso designa: a questão acerca do ser. Mesmo ali onde seu procedimento é “crítico”, como em Descartes e Kant, a Filosofia continua seguindo sempre o rumo da representação metafísica. Ela pensa a partir do ente em direção ao ente, passando por uma certa visada do ser. Pois todo e qualquer ponto de partida do ente e todo retorno a ele já se encontram sob a luz do ser.

A metafísica, porém, não conhece a clareira do ser senão como a visão que parte do que se presenta no “aspecto” (ἰδέα) ou, criticamente, como aquilo que é visto pela visão prospectiva própria ao representar categorial levada a termo por parte da subjetividade. Isto significa: a verdade do ser, enquanto a própria clareira, permanece velada para a metafísica. {GA 9: 332} Esse velamento, no entanto, não é uma deficiência da metafísica, mas o tesouro de sua própria riqueza, um tesouro dela retido e, contudo, para ela disponível. Mas o ser é a própria clareira. No interior do destino do ser da metafísica, é ela a única que assegura uma visão a partir da qual aquilo que se presenta toca e impressiona o homem, que se presenta para ela, de tal modo que o próprio homem só pode tocar (θἰγεῖν, Aristóteles, Met. Θ 10) o ser na notação (νοεῖν). É só a visão que atrai a prospectiva para si. Ela se abandona a essa quando



14. 1a ed. 1949: Amplidão: Mas não a amplidão do abranger, mas a do sítio (Ortschaft) que acontece apropriando-se; como a amplidão da clareira.


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo - Marcas do caminho