348 Marcas do caminho

ἕστι γὰρ εἶναι, “ele é justamente ser”. Nesta expressão se esconde o mistério inicial de todo pensar. De modo adequado, talvez só se possa dizer o “é” do ser, de tal modo que nenhum ente jamais “é” de maneira própria. Visto, porém, que o pensar ainda precisa conseguir dizer {GA 9: 335} o ser em sua verdade, em lugar de explicitá-lo como um ente a partir de outro ente, deverá ficar em aberto para o cuidado do pensar a questão acerca de se e como o ser é.

O ἕστι γὰρ εἶναι de Parmênides continua ainda hoje impensado. Neste ponto podemos dimensionar a quantas anda o progresso da filosofia. Quando leva em consideração sua essência, ela não avança de modo algum. Ela toma seu lugar para pensar sempre de novo o mesmo. O progresso, a saber, o avanço para além deste lugar, é um erro que persegue o pensar como a sombra por ele mesmo projetada. Como o ser continua impensado, dissemos em Ser e tempo: “dá-se”. No entanto, não se pode especular diretamente e sem algum apoio a respeito deste il y a. Esse “dá-se” impera como o destino do ser. E sua história que vem à linguagem na palavra dos pensadores essenciais. É por isto que o pensar, que se lança de maneira pensante para o interior da verdade do ser, é enquanto tal histórico. Não há um pensamento “sistemático” e, ao lado dele, como ilustração, uma história das opiniões do passado. Tampouco existe apenas, como acredita Hegel, uma sistemática que pudesse converter a lei de seu pensar em lei da história, suspendendo e subsumindo igualmente a essa história no sistema. Pensando de maneira inicial, dá-se a história do ser à qual pertence o pensar como um pensar rememorante dessa história, um pensar que é por ela apropriado em meio ao acontecimento. O pensar rememorante distingue-se essencialmente de uma atualização posterior da história no sentido de um transcorrer passado. A história não acontece primeiramente como um contecer e esse acontecimento não é um passar. O acontecer da história essencializa-se como o destino da verdade do ser a partir do ser (cf. a conferência sobre o hino de Hölderlin “Como em dia de feriado...”, 1941, p. 31). O ser chega ao destino na medida em que ele, o ser, se dá. Todavia, pensado sob o modo do


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo