354 Marcas do caminho

o título de “americanismo”, têm em mente um estilo de vida específico que de mais a mais é deplorável. O perigo20 pelo qual, de modo cada vez mais claro, a Europa se sente ameaçada consiste, em verdade, no fato de, antes de qualquer outra coisa, seu pensar – primordialmente sua grandeza – estar um passo atrás21 do curso essencial do destino universal iminente que, mesmo assim, nos traços fundamentais de sua origem essencial, continua sendo determinado de modo europeu. Nenhuma metafísica, seja ela idealista, materialista ou cristã, segundo sua essência, e de modo algum apenas com os esforços envidados para se desenvolver, pode ainda re-cuperar o destino, isto é: atingir e reunir pelo pensamento aquilo que agora é em um pleno sentido do ser22.

Em face da essencial apatridade dos homens, o destino futuro se mostra ao pensar da história do ser no fato de ele encontrar um caminho para a verdade do ser e pôr-se a caminho desse encontro. Todo e qualquer nacionalismo, metafisicamente falando, é um antropologismo e, como tal, um subjetivismo. O nacionalismo não é superado pelo internacionalismo, mas apenas ampliado e sistematizado. Assim como o individualismo não é suspenso pelo coletivismo sem história, o nacionalismo também não é elevado à humanitas e suspenso. Esse coletivismo é a subjetividade23 do ser humano na totalidade. Ele consuma {GA 9: 342} sua auto-afirmação incondicional e



20. 1a ed. 1949: nesse meio tempo, o perigo se tornou mais evidente. A recaída do pensar na metafísica assume uma nova forma: trata-se do fim da filosofia no sentido de sua dissolução completa nas ciências, cuja unidade se desenvolve de certo modo de maneira nova na cibernética. O poder da ciência não pode ser detido por uma intervenção e por uma medida de certo tipo, porque a “ciência” pertence à com-posição que ainda encobre o acontecimento apropriativo.

21. 1a ed. 1949: Recaída na metafísica.

22. Doutrina platónica da verdade, 1a ed. 1947: o que dá-se agora – agora na época da vontade de vontade? Agora dá-se o desamparo (Verwahrlosung) incondicional, pensando-se a palavra a partir do rigor da história do ser: não-verdadeiro (wahr-los); ao contrário: próprio ao destino.

23. 1a ed. 1949: A sociedade industrial, enquanto o sujeito decisivo – e o pensar enquanto “política".


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo