Carta Sobre o Humanismo 355

esta não permite voltar atrás. Nem sequer permite que se experimente suficientemente essa auto-afirmação por meio de um pensar parcialrpente mediador. Expulso da verdade do ser, o homem circula por toda parte ao redor de si como o animal rationale.

Mas a essência do homem consiste em ele ser mais do que mero homem, na medida em que este é representado como um ser vivente racional. “Mais” não pode ser compreendido aqui aditivamente, como se a definição de homem que nos foi transmitida pela tradição devesse continuar sendo sua determinação fundamental, para só então experimentar uma ampliação pelo acréscimo do aspecto existencial. O “mais” significa: mais originária e, por isto, mais essencial em sua essência. Mas aqui se mostra o elemento enigmático: o homem é enquanto jogado, o que significa: o homem é enquanto a contrajogada ek-sistente do Ser, na medida em que é mais do que o animal rationale, enquanto este é menos em relação ao homem que se compreende a partir da subjetividade. O homem não é o senhor do ente. O homem é o pastor do ser. Nesse “menos", o homem nada está perdendo, mas ganhando, na medida em que alcança a verdade do ser. Ele ganha a pobreza essencial do pastor, cuja dignidade consiste em ser invocado pelo próprio ser para guardar sua verdade. Este chamado provém como uma jogada, do qual surge o ser jogado do ser-aí. Em sua essência marcada pela história do ser, o homem é o ente cujo ser, enquanto ek-sistência, consiste no fato de habitar na proximidade do ser. O homem é o vizinho do ser.

Assim, porém, o senhor já deve estar querendo retrucar há muito tempo: este pensar não pensa justamente a humanitas do homo humanus? Ele não pensa essa humanitas em um significado tão decisivo como nenhuma metafísica o pensou e jamais poderá pensá-lo? Isto não é “humanismo” no sentido mais extremo? Seguramente. É o humanismo que pensa a humanidade do homem a partir da proximidade com o ser. Mas é igualmente o humanismo em que está em jogo não o homem, mas a essência histórica do homem em sua proveniência a partir da verdade do ser. Nesse jogo, contudo,


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho