356 Marcas do caminho

não está e não incide também, então, a ek-sistência do homem? Assim o é.

Em Ser e tempo (p. 38) diz-se que todo questionamento da filosofia “repercute na existência”. Mas aqui, ek-sistência não é a realidade do ego cogito. Tampouco é a realidade dos sujeitos que, atuando uns com os outros e uns para os outros, chegam a si mesmos. Essencialmente diferente de toda existência e de toda “existence”, ek-sistência é o morar ek-stático na proximidade do ser. Ela é a guarda, isto é, o cuidado com o ser. E é porque nesse pensar está em questão pensar algo simples que ele se mostra como tão difícil para o representar legado pela tradição como filosofia. Só que a dificuldade não consiste em estar à cata de um sentido profundo e especial, construindo conceitos complicados. Ela se esconde antes no fato de dar-um-passo-atrás que permite ao pensar adentrar em um questionamento experimentador, deixando de lado a opinião comum da filosofia.

Segundo a opinião geral, os ensaios feitos em Ser e tempo esbarraram em um beco sem saída. Deixemos essa opinião entregue a si mesma. A respeito de Ser e tempo, o pensar - que neste tratado assim intitulado intenta dar alguns passos avante - continua ainda hoje sem lograr encontrar uma saída e avançar. Neste meio tempo, porém, talvez tenha conseguido antes adentrar avançando na questão que lhe diz respeito. Mas enquanto a filosofia continuar se ocupando exclusiva e constantemente apenas em minar a possibilidade de dedicar-se pela primeira vez à questão do pensamento, a saber, à verdade do ser, ela continuará seguramente fora do perigo de quebrantar-se na dureza da questão que lhe diz respeito. Por isto, o “filosofar” sobre o fracasso está separado por um abismo do pensar que fracassa. Se este lograsse ter êxito em um homem, não estaria acontecendo nenhuma desgraça. Ele estaria recebendo o único presente que pode provir ao pensar a partir do ser. {GA 9: 344}

Mas também é verdade que não se alcança a questão do pensar pelo fato de se empreender um discurso sobre “a verdade do ser” e sobre a “história do ser”. Tudo depende unicamente de que a verdade do ser venha à linguagem e de que o


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo