Carta Sobre o Humanismo 363

perspectiva da dimensão iluminada, a partir da qual vige o “ek-” da ek-sistência. Pensado a partir da ek-sistência, “mundo”, de certo modo, é justamente o além da ek-sistência dentro dela e para ela. Imediatamente aquém do mundo, o homem jamais é homem como um “sujeito”, seja como “eu” ou como “nós”. E também jamais é somente sujeito que se relaciona sempre igualmente com objetos, de tal modo que seu ser residiria na relação-sujeito-objeto. Ao contrário, em sua essência, o homem é primeiramente ek-sistente na abertura do ser. É essa abertura a única que ilumina o “entre” dentro do qual pode “dar-se” uma “relação” entre sujeito e objeto.

A sentença “a essência do ser reside no ser-no-mundo” tampouco contém uma decisão sobre se, em sentido teológico-metafísico, o homem é um ser do mundo do aquém ou é um ser que pertence ao mundo do além.

Com a determinação ek-sistencial da essência do homem nem por isto se decidiu ainda quanto ao “ser-aí de Deus” ou seu “não-ser” e muito menos sobre a possibilidade ou impossibilidade da existência dos deuses. Querer afirmar que a interpretação {GA 9: 351} da essência do homem a partir da relação dessa essência com a verdade do ser seria ateísmo seria assim não só uma decisão prematura, mas já um erro de procedimento. Além disto, porém, essa classificação arbitrária peca ainda no cuidado com a leitura. Parece não interessar a formulação que, desde 1929, se encontra no escrito “A essência do fundamento” (p. 28, nota 1) e que diz: “por meio da interpretação ontológica do ser-aí como ser-no-mundo não se decidiu nem positiva nem negativamente sobre a possibilidade de um ser para Deus. No entanto, pelo esclarecimento da transcendência, conquistou-se pela primeira vez um conceito do suficiente do ser-aí, com respeito ao qual agora se pode perguntar pela real situação ontológica da relação do ser-aí com Deus”. Se agora, contudo, se toma essa observação também de modo usual, pensando-a de maneira míope, acaba-se declarando: essa filosofia não se decide nem a favor nem contra o ser-aí de Deus. Permanece ancorada na indiferença. Portanto, a questão religiosa lhe é indiferente e um tal indiferentismo recai no nihilismo.


Martin Heidegger (GA 9) Marcas do caminho