376 Marcas do caminho

entrar na discórdia a fim de dizer o mesmo. Tanto a ambiguidade quanto o mero discenso é que ameaçam.

A conveniência do dizer do ser como o destino da verdade é a primeira lei do pensar, não as regras da lógica, que só podem tornar-se regras a partir da lei do ser. Voltar a atenção, porém, ao conveniente do dizer pensante não implica somente que reflitamos a cada vez sobre o que se deve dizer e como se deve dizê-lo. De forma igualmente essencial é preciso sopesar se aquilo que deve ser pensado tem permissão para ser dito: até que ponto, em que momento da história do ser, em que diálogo com essa e com que exigências pode ser dito. Aqueles três pontos mencionados em uma carta anterior são {GA 9: 364} determinados em sua copertinência a partir da lei da conveniência do pensamento da história do ser: o rigor da reflexão, o cuidado com o dizer, a sobriedade das palavras.

Já é hora de nos desacostumarmos a supervalorizar a filosofia, o que acaba exigindo muito dela. Na situação constringente em que se encontra o mundo de hoje, o necessário é: menos filosofia e mais cuidado com o pensar; menos literatura, porém mais cultivo da letra.

O pensar futuro já não é mais filosofia, pois pensa de modo mais originário que a metafísica, nome que, no fundo, diz a mesma coisa. Mas o pensar futuro tampouco pode desfazer-se do nome de “amor à sabedoria”, como exigia Hegel, e converter-se na própria sabedoria, na figura do saber absoluto. O pensar está descendo para a pobreza de sua essência provisória. O pensar reúne a linguagem no dizer simples. Deste modo, a linguagem é a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu. Com seu dizer, o pensar abre sulcos imperceptíveis na linguagem. Esses são ainda mais imperceptíveis que os sulcos que a passos lentos o campesino abre pelo campo a fora.


Martin Heidegger (GA 9) Carta Sobre o Humanismo