450 Marcas do caminho

para o desvelamento. No pre-sentar se manifesta a desocultação. Ela acontece no Ἕν e no Λόγος, isto é, no jazer-aí unificando e recolhendo - quer dizer, no deixar demorar-se como presença. A Ἀλήθεια eia acontece na Ἰδέα e na κοινωνία das idéias, na medida em que essas se manifestam umas às outras, constituindo, desta maneira, o ente-ser, o ὄντως ὄν. A Ἀλήθεια acontece na Ένέργεια, que nada tem a ver com actus e nada com atividade, mas somente com o ἔργον experimentado em seu sentido grego e em seu caráter de ser-produzido e levado para o interior do pre-sentar.

Mas a Ἀλήθεια, a desocultação não acontece apenas nas palavras fundamentais do pensamento grego, ela acontece na totalidade da língua grega, que fala diferente tão logo deixamos fora de jogo as maneiras de representar romanas, medievais e modernas, ao interpretá-la, e tão logo deixamos de procurar por personalidades e pela consciência no mundo grego.

Mas qual é, então, a situação desta Ἀλήθεια enigmática mesma que se tornou um escândalo para os intérpretes do mundo grego, pelo fato de se aterem apenas a essa palavra isolada e sua etimologia, em vez de pensarem a partir da questão para a qual [442] apontam palavras como desvelamento e velamento? É a Ἀλήθεια enquanto desvelamento o mesmo que ser, isto é, pre-sentar? Isto vem confirmado pelo fato de ainda Aristóteles entender como τά ὄντα, o ente, aquilo que se presenta, o mesmo que com τὰ ἀληθέα, aquilo que está desvelado. No entanto, de que maneira desvelamento e presença, ἀλήθεια e οὐσία estão ligados entre si? São ambos da mesma classe de ser? Ou será que a presença só depende do desvelamento e não vice-versa esse daquela? Neste caso, o ser tinha, na verdade, algo a ver com a desocultação, mas a desocultação não tinha nada a ver com o ser. Mais ainda: se a essência da verdade como correção e certeza, uma essência que muito cedo se fez valer, só puder subsistir no âmbito do desvelamento, então, sem dúvida, a verdade tem algo a ver com a Ἀλήθεια, mas esta não tem nada a ver com a verdade.

Qual o lugar da Ἀλήθεια mesma, se ela é libertada da perspectiva sobre a verdade e o ser e tiver que ser entregue


Martin Heidegger (GA 54) Parmênides