à liberdade que lhe é própria? Possui já o pensamento o horizonte para ao menos conjeturar sobre o que acontece na desocultação e mesmo na ocultação de que necessita qualquer desocultação?
O enigmático da Ἀλήθεια se torna mais compreensível, mas ao mesmo tempo o risco de nós a hipostasiarmos em um ser fantástico se torna maior.
Observou-se ainda, já várias vezes, que não poderia se dar um desvelamento em si, que desvelamento sempre é desvelamento “para alguém”. E, com isto, estaria provada sua “subjetivação”.
Deve, todavia, ser o homem em que aqui se pensa necessariamente determinado como sujeito? Significa “para o homem” já obrigatoriamente: posto pelo homem? Podemos negar as duas coisas e nos vemos levados a lembrar que a ἀλήθεια, pensada em sentido grego, sem dúvida alguma impera para o homem, mas que o homem permanece determinado pelo λόγος. O homem é aquele que diz. Dizer, no alemão arcaico sagan, significa: mostrar, fazer aparecer e ver. O homem é o ser que pelo dizer faz surgir o presente em sua presença e, assim, percebe o reside-defronte. O homem apenas sabe falar na medida em que é aquele que diz.
Encontramos em Homero as mais antigas referências a ἀληθείη e ἀληθής, desvelamento e desvelado, e, na verdade, em conexão com verbos que significam dizer. Disto se conclui apressadamente demais: portanto, o desvelamento é “dependente” dos verba dicendi1. Que significa aqui “dependente”, quando dizer é o deixar aparecer e, em consequência, tal também é o disfarçar e o encobrir? Não é o desvelamento que é “dependente” do dizer, mas qualquer dizer que já precisa do âmbito do desvelamento. Apenas lá onde o desvelamento já impera, algo pode tornar-se dizível, visível, mostrável, perceptível. Se mantivermos na mira o imperar enigmático da Ἀλήθεια,
1. Assim fala FRIEDLÄNDER, P. Platão. Vol. I, 2â edição, 1954, p. 235, seguindo a trilha de W. Luther, que em sua dissertação de Gõttingen, 1935, p. 8ss, vê mais claramente este estado de coisas.