“fixação” é, em latim, pango, de onde a palavra pax - paz. Este é, pensado com base no imperial, o estado fixado do que é levado à ruína. Na verdade, o levar à ruína como enganar e vencer, por truques, não é a actio mediata e derivada, mas a adio realmente genuína, imperial. O feito, propriamente, “grande” do imperial não reside na guerra e sim no fallere do subterfúgio e manipulação para dominação. As batalhas contra as cidades e tribos italianas, por meio das quais Roma assegurou [61] seu território e sua expansão, fazem manifesto em toda parte o claro procedimento de convivência e inclusão - mediante acordos - de tribos residentes numa distância cada vez maior. No fallere latino, no levar à ruína como subterfúgio está o “enganar”; o falsum é o que engana de modo pérfido: “o falso”.

O que acontece, quando o ψεῦδος grego é pensado no sentido do falsum latino? O ψεῦδος grego como o que dissimula, e a partir daí também “engana”, não é mais experimentado e interpretado a partir do ocultar, mas do enganar. O ψεῦδος grego é transposto [übergesetzt], por meio da tradução para o falsum latino, para dentro do âmbito latino-imperial do “levar à ruína”. O ψεῦδος, dissimulação e encobrimento, se torna agora o que faz cair, o falsum. Assim se torna claro que a experiência, o pensamento, a organização e expansão, a construção e o trabalho romanos não se movimentam jamais, desde o seu início essencial, no âmbito da ἀλήθεια e do ψεῦδος. Como uma espécie de constatação historiográfica sabemos, há longo tempo, que os romanos tomaram bens dos gregos de muitas formas e que esta apropriação foi uma remodelação. Entretanto, será necessário um dia refletirmos sobre quais âmbitos essenciais e em que amplitude esta latinização da cultura grega se processou. A transformação de ψεῦδος isto é, a apropriação do “encobrimento” no sentido de “levar à ruína” vai tão longe a ponto de a língua latina adotar a construção e o uso da palavra grega λανθάνω, “eu sou e estou encoberto”. Essa apropriação, que, ao mesmo tempo, transforma, é favorecida pelo parentesco indo-germânico da língua grega e latina. O grego diz λανθάνει ἥκων; traduzimos corretamente: “Ele vem sem ser notado”. Mas, pensado no modo grego, isso diz: “Ele está encoberto como alguém que está vindo.” O historiador romano Lívio diz: fallit hostis incedens; em nossa linguagem: “O inimigo se aproxima sem ser notado.” Pensado de modo latino: “O inimigo engana como alguém que se aproxima”; propriamente, no entanto, a frase diz: “O inimigo leva


68


Martin Heidegger (GA 54) Parmênides