24 PLATÃO: O SOFISTA | MARTIN HEIDEGGER


imperatividade universal. Essa imperatividade não tem nada em comum com verdade. Algo pode ser universalmente válido e, de qualquer modo, não ser verdadeiro. A maioria dos preconceitos e das obviedades são tais validades universais, que se distinguem pelo fato de encobrir o ente. Inversamente, precisamente aquilo que não é compreensível para qualquer um, mas apenas para um singular, pode ser verdadeiro. Nesse conceito de verdade, por conseguinte, na verdade do desencobrir, ainda não se acha previamente julgado o fato de o desencobrir propriamente dito precisar ser necessariamente o conhecimento teórico ou uma determinada possibilidade do conhecimento teórico, por exemplo, a ciência ou mesmo a matemática; como se a matemática como a mais rigorosa de todas as ciências também fosse a mais verdadeira, e como se verdadeiro fosse apenas aquilo que equivaleria ao ideal de evidência da matemática. A verdade, o desvelamento, o ser desencoberto, orienta-se (retifica-se) muito mais pelo ente mesmo, e não por um determinado conceito de cientificidade. É isso que reside na tendência do conceito grego de verdade. Por outro lado, precisamente essa interpretação grega da verdade levou a que se visse no conhecimento teórico o ideal propriamente dito de conhecimento e a que se orientasse (retificasse) todo conhecimento pelo conhecimento teórico. Como é que isso aconteceu é algo que não temos como acompanhar aqui mais detidamente; queremos deixar claro para nos agora as raízes dessa passibilidade.



b) A história do conceito de verdade


Segundo seu sentido literal, ἀληθές (verdadeiro/desvelado) significa: não encoberto. Esse caráter não encoberto não advém coisa, mas é a coisa, na medida em que ela vem ao encontro, na medida em que ela se mostra como objeto de uma lida. Por conseguinte, o não estar encoberto é uma realização especifica [25] do ser-aí, que tem seu ser na alma: ἀληθεύει ἡ ψυχή (a alma desvela). Pois o modo mais imediato do desencobrir é o falar sobre as coisas, isto é, a determinação da vida, que se pode tomar como λόγος (discurso), assume primariamente a função do ἀληθεύειν


Martin Heidegger (GA 19) Platão o sofista