TRANSIÇÃO 233


princípios), em direção ao θεωρεῖν (à contemplação teórica), é possível mostrar que o λόγος (discurso) ainda é fundamental para a concepção definitiva do ser. Mesmo Aristóteles, apesar de ter superado a dialética, permanece de qualquer modo orientado pelo λόγος (discurso) em todo o Seu modo de questionamento acerca do ser. Esse estado de fato é a origem daquilo que se designa hoje como ontologia formal e confluiu para ela. O διαλέγεσθαι (exame dialógico) é um modo de questionar o ente com vistas ao Seu ser, no qual o λόγος é e se mantém como fio condutor. Para Aristóteles, porém, o λόγος (discurso) se mostra em sua estrutura relacional peculiar: o λέγειν (o dizer) é sempre um λέγειν τι κατά τίνος (um dizer algo como algo ou com vistas a algo). Na medida em que o λόγος (discurso) interpela discursivamente algo como algo, ele é fundamentalmente inapropriado para apreender aquilo que, segundo o seu sentido, não pode mais ser interpelado discursivamente de outro modo como algo, mas que so pode ser apreendido nele mesmo. Aqui fracassa, por assim dizer, o λόγος (discurso) nessa estrutura imediata e predominante. O que resta, quando se vai além dele, é apenas uma nova ideia do λόγος: o λόγος καθ᾽αὐτό (o dizer com vistas ao mesmo), tal como Aristóteles mostrou essa nova ideia em Metafisica VII, capitulo 4.

Com base nessa intelecção mais aguda da estrutura do λόγος (discurso), Aristóteles consegue caracterizar a dialética platónica mesma em Seu caráter provisório. Ele realiza essa caracterização em conexão com o modo de investigação que se designa como "Primeira Filosofia" [207] e que considera o ente em Seu ser. Em conexão com a exposição da ideia de uma ciência originária e primeira do ser, Aristóteles também se reporta ao dialético e ao sofista, na medida em que diz que também os dois levantam a pretensão de serem filósofos.25 Ao mesmo tempo, com essa pretensão à filosofia, o conhecimento e o interesse pelo conhecimento dos dois também se revelam como dirigidos para a totalidade, para o ὅλον (todo), para os ἅπαντα, para todos os entes, e não para um ente determinado. Em meio a essa consideração, Aristóteles



25 Metafisica IV, 2; 1004b17ss.


Martin Heidegger (GA 19) Platão o sofista