SER E TEMPO

ao ponto de imputar-se um erro de método a quem ainda interroga a esse respeito.

No início desta investigação não se pode discutir em pormenor o conjunto dos preconceitos que constantemente rebrotam e nutrem de novo a opinião de que é desnecessário perguntar pelo ser. Eles têm suas raízes na própria ontologia antiga. [3] Esta, por sua vez, só pode ser interpretada de modo suficiente — quanto ao terreno de onde nascem os conceitos ontológicos fundamentais e relativamente à adequada demonstração e ao número completo das categorias — pelo fio-condutor da pergunta pelo ser, uma vez que esta tenha sido elucidada e respondida. Por isso levaremos a discussão dos preconceitos apenas até onde se possa ver a necessidade de uma repetição da pergunta pelo sentido de ser. São três os preconceitos:

1. O "ser”a é o conceito “mais universal”: τὸ ὂν ἐστι καθόλου μάλιστα πάντων1, Illud quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitttr in omnibus, quaecumque quis apprehendit. “Um entendimento do ser já está incluído cada vez em tudo o que se apreende no ente”2. Mas a “universalidade” de “ser” não é a do gênero. “Ser” não delimita a região suprema do ente, na medida em que o ente é conceitualmente articulado segundo gênero e espécie: οὔτε τὸ ὄν γένος3. A “universalidade” do ser “ultrapassa" toda universalidade genérica. “Ser”, segundo a designação da ontologia medieval, é um “transcendente”. A unidade desse transcendentalmente “universal”, por oposição à multiplicidade dos conceitos-de-coisa que são os conceitos supremos de gênero, já foi reconhecida por Aristóteles como a unidade da analogia. Essa descoberta permite que Aristóteles, não obstante toda a sua dependência da problemática ontológica de Platão,


1 Aristóteles, Met. B 4, 1001 a 21.

2 Tomás de Aquino, S. th. II, 1 ed., qu. 94 a 2.

3 Aristóteles, Met. B 3, 998 b 22.


a o ente, a entidade*.


* As notas de rodapé em ordem numérica integram o texto desde sua primeira edição. Em ordem alfabética estão as anotações apostas por Heidegger à margem do seu exemplar de uso, também conhecido como “o exemplar da cabana”, e que são posteriores a 1927. (N. do T.)


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Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)