SER E TEMPO

A fenomenologia é o modo-de-acesso ao que deve se tornar tema da ontologia por determinação demonstrativa. A ontologia só é possível como fenomenologia. O conceito fenomenológico de fenômeno designa, como o que se mostra, o ser do ente, seu sentido, suas modificações e derivados. E o mostrar-se não é um mostrar-se qualquer, [36] nem também algo assim como o aparecer. O ser do ente é o que menos pode ser concebido como algo “atrás” do qual ainda haveria algo que “não aparece”.

“Atrás” dos fenômenos da fenomenologia não há essencialmente nada mais, embora seja possível que esteja oculto o que deve tornar-se fenômeno. E precisamente por isso, porque os fenômenos não se dão de pronto e no mais das vezes, é que se exige fenomenologia. O ser-encoberto é o conceito oposto ao de “fenômeno”.

Diversos são os modos do possível ser-encoberto dos fenômenos. Em primeiro lugar, um fenômeno pode estar encoberto no sentido de que ainda não foi descoberto: não é conhecido, nem é ignorado. Em segundo lugar, um fenômeno pode ter sido de novo encoberto, isto é, esteve antes descoberto, mas voltou a cair sob o encobrimento. Esse encobrimento pode se tornar total, ocorrendo, no entanto, em regra que o antes descoberto é ainda visível, mas só como aparência. Porém, quanto de aparência, tanto de “ser”. Esse encobrimento como “disfarce” é o mais frequente e o mais perigoso, pois aqui as possibilidades de engano e extravio são particularmente tenazes. Mas as estruturas-de-ser disponíveis, embora ocultas no que se refere ao solo sobre o qual se assentam e aos seus conceitos, podem talvez postular seus direitos no interior de um “sistema”. Mercê de sua inserção construtiva no interior de um sistema, elas se dão como algo “claro”, não necessitando de maior justificação e podendo, portanto, servir de ponto de partida para uma dedução progressiva.

O encobrimento ele mesmo, apreendido no sentido do ser-oculto ou do novo encobrimento ou do disfarce,


123


Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)