SER E TEMPO

inapridões, e suas “propriedades” estão nelas como que latentes, do mesmo modo que a subsistência está latente na utilizabilidade como modo-de-ser possível de um utilizável. Mas a serventia (remissão), como constituição-de-instrumento, também não é aptidão de um ente, mas a condição conforme-ao-ser da possibilidade de que ele possa se determinar por aptidões. Mas, então, que deve a remissão significar? O ser do utilizável tem a estrutura da remissão — e isto significa [84] que ele tem em si mesmo o caráter do ser-remetido-a. O ente é descoberto em relação ao fato de que ele, como esse ente que ele é, remete a algo. Ele tem consigo o conjuntar-se a algo. O caráter-de-ser do utilizável é a conjuntação*. Na conjuntaçao, deixa-se que algo fique voltado para junto de algo. A relação do “com... junto...” deve ser indicada pelo termo “remissão”.

Conjuntação é o ser do ente do-interior-do-mundo, em relação ao qual esse ente já é de pronto cada vez posto-em-liberdade. Como ente, ele tem cada vez uma conjuntação. Isto de que ele tenha uma conjuntação com... junto é a determinação ontológica do ser desse ente e não um enunciado ôntico sobre o ente. Aquilo junto-a que a conjuntação aponta é o para-quê da serventia, o em-quê da empregabilidade. O para-quê da serventia pode ter por sua vez sua conjuntação. Por exemplo, com esse utilizável que, por isso, denominamos martelo, tem a conjuntação no martelar, o martelar a tem no pregar para deixar firme, este no proteger de intempéries e este “a fim de” abrigar o Dasein, isto é, em vista de uma possibilidade de seu ser. Qual a conjuntação que um utilizável tem é algo que está de antemão delineado pela totalidade-da-conjuntação. A totalidade-da-conjuntação que, por exemplo, constitui a utilizabilidade de um dado utilizável numa oficina “precede” o utilizável individual, do mesmo modo que a utilizabilidade de uma propriedade rural em relação a todos os seus apetrechos e instalações. Mas a totalidade-da-conjuntação ela mesma retrocede por último a um para-quê, junto ao qual não há.


* Para o registro do verbo e, consequentemente, de conjuntação, cf. Othaniel Motta, Cathedratico do Gymnasio de Campinas, Lições de Portuguez. 4a ed. melhorada. São Paulo, Monteiro Lobato & Cia. Editores, 1923. Lição XXXIX, Nota de p. 72. (N. do T.)


251


Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)