SER E TEMPO

Se o ser-com permanece existenciariamente constitutivo do ser-no-mundo, é preciso que, do mesmo modo que o trato do ver-ao-redor com o utilizável do-interior-do-mundo, que caracterizamos previamente como ocupação, o ser-com seja interpretado a partir do fenômeno da preocupação, como o que determina em geral o ser do Dasein (cf. Sexto Capítulo da presente Seção). O caráter-de-ser do ocupar-se não pode convir ao ser-com, embora esse modo-de-ser seja, assim como a ocupação, um ser relativo a um ente que-vem-de-encontro no interior-do-mundo. O ente em relação ao qual o Dasein se comporta como ser-com, mas não tem o modo-de-ser do instrumento utilizável, é ele mesmo Dasein. Desse ente o Dasein não se ocupa, pois com ele se preocupa.

“Ocupar-se” de alimentar e de vestir, cuidar de um corpo doente são também preocupação-com. Entendemos, porém, essa expressão, em correspondência com o emprego de ocupação, como termo para um existenciário. A organização social factual, por exemplo, que em alemão se chama “Fürsorge", funda-se também na constituição-de-ser do Dasein como ser-com. Sua urgência factual é motivada pelo fato de o Dasein se manter de pronto e no mais das vezes nos modi deficientes da preocupação-com. Ser um para o outro, ser um contra o outro, prescindir um do outro, passar um ao lado do outro, não se importar em nada com o outro são modos possíveis da preocupação-com. E, precisamente os modi da deficiência e da indiferença, nomeados por último, são os que caracterizam o cotidiano e mediano ser-um-com-o-outro. Esses modi-do-ser mostram de novo o caráter de não-surpresa e de algo-que-se-entende-por-si-mesmo que são próprios tanto do cotidiano Dasein-com dos outros no-interior-do-mundo como da utilizabilidade do instrumento de ocupação diária. Esses modi indiferentes do ser-um-com-o-outro desviam facilmente a interpretação ontológica para que de pronto se interprete esse ser como pura subsistência de vários sujeitos. Conquanto tenham a aparência de variantes desimportantes do mesmo modo-de-ser, no entanto persiste uma diferença ontológica essencial entre a coocorrência “indiferente” [122] de coisas quaisquer e o-não-se-importar-em-nada-com-os-outros de entes que são-uns-com-os-outros.


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Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)