a primária relação-de-ser com o ente de que discorre; mas o ser-um-com-o-outro move-se no discorrer-uns-com-os-outros e no ocupar-se daquilo-de-que-o-discurso discorre. Para este o que conta é que se discorra. O ser-dito, o dictum e a expressão respondem agora pela autenticidade e conformidade-à-coisa do discurso e do seu entendimento. E porque o discurso perdeu ou nunca conquistou a primária relação-de-ser com o ente de que discorre, não se comunica no modo da apropriação originária desse ente, mas pelo caminho de uma difusão e repetição do discorrido. O discorrido como tal atinge âmbitos cada vez mais amplos e assume caráter autoritário. A coisa é assim porque a-gente o diz. Nessa repetição e difusão por meio da qual a inicial falta-de-solo aumenta até atingir a total falta-de-solo, o falatório é constituído. Além disso, o falatório não se limita à repetição oral, [169] mas se alastra pelo escrito como “escrevinhação”. A repetição do discurso aqui não se funda somente no ouvir-dizer. Também se alimenta do lido por cima. O entendimento mediano do leitor nunca pode separar o que foi conquistado e alcançado originariamente do que é meramente repetido. Mais ainda: o entendimento mediano sequer há de querer fazer semelhante distinção, e dela não necessita, pois já entendeu tudo.
A falta-de-solo do falatório não o impede de ingressar no que é público, mas favorece seu ingresso. O falatório é a possibilidade de tudo entender sem uma prévia apropriação da coisa. O falatório já protege por antecipação contra o perigo de malograr em tal apropriação. O falatório, que qualquer um pode obter, não só dispensa da tarefa de um entendimento autêntico, mas desenvolve uma entendibilidade indiferente para a qual já nada está fechado.
O discurso, que pertence à essencial constituição-de-ser do Dasein e de cuja abertura é coconstitutivo, tem a possibilidade de tornar-se falatório e, como este, não manter aberto o ser-no-mundo em um entendimento articulado,
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