e a curiosidade mais inventiva mantêm funcionando “o estabelecimento” onde cotidianamente tudo ocorre e, no fundo, nada acontece.

Essa ambiguidade sempre propicia à curiosidade o que ela busca e ao falatório dá a ilusão de que nele tudo se decidiría.

Mas esse modo-de-ser da abertura do ser-no-mundo também domina o ser-um-com-o-outro como tal. O outro é de imediato “aquilo” a partir de que a-gente ouviu a respeito dele, do que discorreram sobre ele e do que dele se sabe. Entre o originário ser-um-com-o-outro o falatório se intercala de imediato. [175] Cada um se fixa em primeiro lugar e de pronto no outro, em como ele se comporta e no que dirá a esse respeito. O ser-um-com-o-outro em a-gente não é de modo algum um estar-juntos completo e indiferente, mas um tenso, ambíguo fiscalizar um ao outro, uma recíproca escuta secreta. Sob a máscara do um pelo outro, opera um contra o outro.

Aqui se deve observar que a ambiguidade de modo algum surge de uma intenção expressa de dissimulação e de deturpação das coisas e não é também suscitada pelo Dasein individual. Ela já reside no ser-um-com-o-outro como o ser-um-com-o-outro dejectado em um mundo. Mas ela fica publicamente oculta e a-gente sempre se defenderá negando o acerto dessa interpretação do modo-de-ser do ser-do-interpretado de a-gente. Seria um mal-entendido querer confirmar o bem fundado da explicação desses fenômenos pelo assentimento de a-gente.

Os fenômenos do falatório, da curiosidade e da ambiguidade foram expostos para mostrar uma conexão-de-ser entre eles. E preciso que agora se apreenda em sentido ontológico-existenciário o modo-de-ser dessa conexão. O modo-de-ser fundamental da cotidianidade deve ser entendido no horizonte das estruturas de ser do Dasein conquistadas até agora.


491


Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)