isto é, que ele é na mesmidade assim como a enunciação o mostra e descobre sendo. Representações não se comparam, nem entre si, nem em relação à coisa real. Na comprovação não se trata de uma concordância de conhecer e objecto, nem menos ainda de psíquico e físico, assim como não se trata de uma concordância entre “conteúdos de consciência”. Na comprovação se trata unicamente do ser-descoberto do ente ele mesmo, dele no como de seu ser-descoberto. Este se comprova em que o enunciado, isto é, o ente ele mesmo, se mostra como ele mesmo. A comprovação significa: o mostrar-se do ente na mesmidade15. A comprovação se efetua sobre o fundamento de um mostrar-se do ente. E isto só é assim possível porque o conhecer que enuncia e se comprova é, segundo seu próprio sentido ontológico, um ser que-descobre voltado para o ente real ele mesmo.

A enunciação é verdadeira significa: que ela descobre o ente em si mesmo. Ela enuncia, mostra, “faz ver” (ἀπόφανσις) o ente em seu ser-descoberto. O ser-verdadeiro (verdade) da enunciação se deve entender como um ser-descobridor. A verdade não tem, portanto, de modo algum a estrutura de uma concordância entre conhecer e objeto, no [219] sentido de uma adequação de um ente (sujeito) a outro (objeto).


15 Sobre a ideia de comprovação como “identificação", cf. Husserl, Log. Unters. [Investigações lógicas], 2 t. II, 2a parte, Investigação VI. Sobre “evidência e verdade”, idem, op. cit., §§ 36-39, pp. 115 ss. As apresentações habituais da teoria fenomenológica da verdade limitam-se ao que foi dito nos Prolegômenos críticos (t. I) e apontam a conexão com a teoria da proposição de Bolzano. Não se trata, contudo, das interpretações fenomenológicas positivas, fundamentalmente distintas da teoria de Bolzano. O único alheio à pesquisa fenomenológica que aceitou positivamente as referidas investigações foi E. Lask, cuja “Lógica da filosofia” (1911) está tão fortemente determinada pela VI. Investigação (Sobre intuições sensíveis e categoriais, pp. 128 ss.), assim como sua “Doutrina do juízo” (1912) é determinada pelas seções referidas sobre a evidência e a verdade.


605


Martin Heidegger (GA 2) Ser e Tempo (Castilho)